Quem já assistiu a animes provavelmente percebeu um tema recorrente: o protagonista possui uma força perigosa dentro de si que o torna mais poderoso, mas que precisa ser controlada. Esse tipo de história exerce muito fascínio sobre crianças e adolescentes.

Em Dragon Ball, por exemplo, Goku pode se transformar no macaco gigante e destruir tudo ao seu redor indiscriminadamente. Em Naruto, a Raposa de Nove Caudas concede um enorme poder ao protagonista em momentos de estresse, mas também coloca seus amigos em risco. Nos filmes, Harry Potter vive uma dinâmica semelhante ao carregar dentro de si uma ligação com Voldemort.

Muitos pais se assustam com isso e procuram impedir que os filhos tenham contato com essas histórias. No entanto, elas expressam uma verdade psicológica profunda e universal.

Toda pessoa entra em contato, em algum momento, com uma energia intensa e impulsiva dentro de si, que precisa ser compreendida e integrada. É a força que desperta o desejo de conquistar autonomia, desafiar limites, afirmar a própria identidade e deixar de ser dependente dos adultos.

Essa energia não é, em si, boa ou má. Quando bem direcionada, ela permite que o jovem desenvolva coragem, enfrente desafios, defenda aquilo em que acredita e conquiste respeito. É justamente essa força que impulsiona o amadurecimento.

Por outro lado, ela também escapa ao controle da própria pessoa, quando ela tenta se concentrar nos estudos, manter uma rotina, vencer a procrastinação ou controlar seus vícios, mas fracassa. E isso costuma gerar sofrimento, culpa e frustração.

Por isso, é importante termos essa realidade em mente ao lidar com crianças e adolescentes que apresentam dificuldades para obedecer ou se controlar. Afinal, mesmo os adultos lutam para obedecerem a si-mesmo.

Essas histórias não incentivam a violência ou a rebeldia. Pelo contrário, elas oferecem uma linguagem simbólica para representar um conflito que todo ser humano vive: a tarefa de reconhecer sua força interior, aprender a controlá-la e colocá-la a serviço do bem.

Talvez seja justamente por isso que esses personagens continuem atravessando gerações e despertando tanta identificação.