Um problema inegável de nossa época é a relação com o masculino. O trauma do século XX, gerado por uma relação com um masculino distorcido, presente nos ideais militares dos sistemas totalitários, fez com que a imagem masculina e suas virtudes clássicas fossem associadas ao mal e ao demoníaco. Palavras como força, ordem, disciplina e virtude ainda causam arrepios por evocarem os fantasmas dos sistemas ditatoriais que massacraram milhares de pessoas há poucas décadas. A cultura hippie e seus ideais antiguerra, assim como certas correntes do feminismo e seu discurso antipatriarcal, podem ser compreendidos, em parte, como reflexos do pavor diante da possibilidade de manifestação de um arquétipo do masculino distorcido.

Porém, também é inegável que a ausência das virtudes masculinas tradicionais é sentida de forma crescente e preocupante. O medo, a insegurança, a vaidade e a fragilidade diante dos desafios da existência parecem se expressar em uma verdadeira tsunami de transtornos mentais. Não existe, aqui, uma relação causal direta e unilateral, mas apenas a constatação de que essas virtudes podem desempenhar um papel importante na superação desses problemas, de uma forma ou de outra. Diante desse cenário, alguns acabam recorrendo ao masculino negativo como alternativa ao retraimento diante da vida, produzindo, por sua vez, outras espécies de efeitos colaterais.

A questão de como se relacionar com o masculino nos dias atuais, porém, permanece em aberto. É nesse contexto que os autores junguianos Robert Moore e Douglas Gillette desenvolvem uma proposta a partir da teoria junguiana dos arquétipos masculinos: o Rei, o Guerreiro, o Mago e o Amante, e suas diferentes polaridades, positivas e negativas. Dessa forma, constrói-se um mapa que pode nos ajudar a extrair o melhor desses arquétipos, ao mesmo tempo em que nos permite reconhecer e evitar suas armadilhas.

É uma leitura relativamente tranquila, que não exige um alto nível de erudição para ser compreendida, como ocorre com algumas obras de autores da psicologia analítica. Apesar de algumas discordâncias em relação a determinados pontos, considero que este livro apresenta uma abordagem muito mais interessante para o problema do que a maioria dos trabalhos disponíveis atualmente, oferecendo uma perspectiva genuinamente junguiana sobre a questão.

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