Muitas pessoas imaginam que um dos papéis da psicoterapia é livrar o indivíduo completamente da culpa, para que ele possa se sentir plenamente satisfeito consigo mesmo. Entretanto, a culpa tem um papel importante no desenvolvimento, que muitas vezes não é reconhecido.
O fílósofo Kierkegaard fala da culpa como elemento importante na conscientização da liberdade e da individualidade. Ele explica como a visão de mundo pagã considerava o destino individual definido pelas estrelas e pelos deuses. O indivíduo em si não era responsável por seus atos, em última análise.
Porém, partindo da perspectiva da queda da humanidade através do pecado original da Adão e Eva, existe a inserção da culpa. Para ser culpado é necessário ser responsável por seus próprios atos e, consequentemente, ser um indivíduo livre. Liberdade, responsabilidade, culpa e individualidade são conceitos inseparáveis.
Logo, quando buscamos remover toda a culpa e responsabilidade da pessoa diante das situações que ela vive, também tiramos dela sua liberdade e individualidade. Isso porque ela foi reduzida a uma mera consequência impotente do seu ambiente, sem vontade própria.
Por outro lado, quando despertamos o indivíduo para a responsabilidade perante sua existência e suas escolhas, o libertamos do sentimento de impotência diante da existência. Assim, a culpa é um fator decisivo para constituição da individualidade.
O que a psicoterapia busca não é livrar o indivíduo da culpa, mas da culpa neurótica, que consiste na culpa desproporcional diante de uma situação. Mesmo quando não somos responsáveis por algo que nos aconteceu, somos responsáveis por como reagiremos diante daquilo.
O papel da psicoterapia é ajudar o indivíduo a conviver construtivamente com a culpa normal, que pode nos fornecer uma valiosa fonte de informação sobre nossos erros e sobre aquilo que ainda precisamos desenvolver.